
O medo de que a creatina faça o cabelo cair nasceu de um único estudo de 2009, com 20 jogadores de rugby, que nem sequer olhou pra cabelo. A gente destrincha o que a ciência realmente mostrou.
Se você já foi comprar creatina e travou na hora por causa daquela história de que ela faz o cabelo cair, respira. Esse medo todo se apoia, basicamente, num único estudo de 2009. Ele nunca foi refeito com o mesmo resultado, e o detalhe mais importante quase ninguém conta: aquele estudo nem olhou pra cabelo de ninguém.
Vou te contar de onde saiu a lenda, porque ela pegou tão bem, e o que a gente pode dizer com honestidade hoje.
Um grupo de pesquisadores na África do Sul (van der Merwe e colegas) acompanhou 20 jogadores universitários de rugby por três semanas. Eles tomaram creatina numa fase de saturação, 25 gramas por dia durante uma semana, e depois 5 gramas por dia por mais duas. O que chamou atenção foi o seguinte: os níveis de DHT subiram bastante, algo em torno de 56% na fase de saturação, e ficaram uns 40% acima do ponto de partida na fase de manutenção. A testosterona total praticamente não mexeu.
DHT é a diidrotestosterona, um hormônio derivado da testosterona. E aqui está o pulo do gato do boato: a DHT tem sim relação com a calvície de padrão masculino, aquela que rala as entradas e afina o topo da cabeça. Então a lógica que o pessoal montou foi: creatina sobe DHT, DHT causa calvície, logo creatina causa calvície. Parece redondo. Só que tem um buraco no meio.
O trabalho de 2009 mediu hormônio no sangue. Ponto. Ninguém contou fio, ninguém mediu densidade capilar, ninguém olhou se os folículos estavam encolhendo. Concluir que a creatina derruba cabelo a partir dali é como dizer que alguém vai engordar só porque comeu um prato a mais no almoço de domingo. Pode ser um sinal, mas está longe de ser prova.
Some a isso um problema que costuma passar batido: um estudo com 20 pessoas, por três semanas, é pequeno e curto pra concluir grande coisa sobre um processo que leva anos, como a calvície. E, talvez o ponto mais frustrante de todos, ninguém refez esse experimento e achou o mesmo salto de DHT. Um achado que não se repete é uma pista solta, não um veredito.
Quando outros pesquisadores foram juntar tudo o que existe sobre creatina, testosterona e DHT, o padrão não se sustentou. Uma revisão que reuniu vários estudos com centenas de participantes no total não encontrou mudança consistente nesses hormônios com o uso de creatina. Ou seja: o salto de DHT visto naqueles jogadores de rugby ficou meio sozinho na literatura.
Em 2025 saiu o que muita gente esperava havia tempo: um ensaio de 12 semanas, com grupo placebo e feito às cegas, desenhado justamente pra olhar a saúde do folículo. Foi o primeiro a medir cabelo de verdade. Resultado: não houve diferença de DHT nem de nenhum parâmetro capilar entre quem tomou creatina e quem tomou placebo. É a evidência mais direta que temos, e ela vai na contramão do medo.
Vale a sinceridade, porque endeusar também não ajuda: esse estudo de 2025 teve poucos participantes (perto de 40), não fez rastreamento genético de quem tinha tendência à calvície, e olhou hormônio no sangue, não a atividade da DHT no couro cabeludo, que é onde a calvície de fato acontece. Não é a palavra final. Mas, somado a tudo que já existia, empurra bem a balança pro lado do "pode ficar tranquilo".
A creatina monoidratada é um dos suplementos mais estudados que existem. A Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva, que revisou a montanha de dados sobre ela, coloca a coisa de forma direta: não há evidência convincente de que o uso, mesmo por anos, faça mal a pessoas saudáveis. Isso não é sinal verde pra sair tomando qualquer coisa sem pensar, mas é bem diferente do clima de terror que às vezes cerca a palavra "suplemento".
Pra maioria das pessoas, não existe prova de que a creatina faça o cabelo cair. Se você não tem histórico de calvície na família e está de olho no ganho de força e no rendimento do treino, o medo específico da queda de cabelo não tem lastro pra segurar sua decisão.
Agora, se calvície é uma preocupação real na sua vida, seja porque já começou a rarear, seja porque é forte na sua família, é justo querer cautela. A predisposição à calvície androgenética é hereditária e envolve a sensibilidade dos seus folículos à DHT, uma história que é sua e de mais ninguém. Nesse caso, conversar com um dermatologista antes de começar é uma escolha sensata, não paranoia. Ele consegue olhar o seu couro cabeludo e te dar uma leitura de verdade, em vez de um palpite de internet.
Um jeito prático de pensar: se a única coisa te segurando é o boato do cabelo, a evidência hoje não te dá motivo pra travar. Se tem outros fatores pessoais em jogo, leve a dúvida pra quem pode examinar você.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um médico ou nutricionista. Decisões sobre suplementação, dieta ou qualquer cuidado com a saúde devem ser tomadas com acompanhamento profissional, considerando o seu caso.