
A regra de "só vale se não aguentar mais nenhuma" não se sustenta. Chegar perto da falha ajuda o músculo, mas ir ao limite total em toda série cobra caro. Entenda o RIR e pare no ponto certo.
A pessoa faz a última repetição tremendo, o rosto vermelho, e só solta a barra quando o braço trava sozinho no meio do caminho. A ideia por trás disso é simples: se não doeu até não aguentar mais nenhuma, não valeu. Só que a evidência mais recente sobre treino de força não sustenta essa regra. Chegar perto da falha ajuda o músculo a crescer. Chegar até a falha total em toda série, na maioria das vezes, cobra caro e rende pouco a mais.
Falha muscular é o ponto em que você não consegue completar mais uma repetição com técnica boa, sem ajuda de ninguém e sem trapacear na execução. Existe uma distinção que muda tudo aqui. A falha técnica acontece quando a próxima repetição já sairia feia: o quadril subindo antes do peito no supino, o tronco jogando na rosca, a amplitude encurtando. A falha total é ir além disso, insistir até o músculo simplesmente não responder mais, muitas vezes já com a forma comprometida.
Na prática, quase ninguém precisa buscar a falha total. Ela raramente traz ganho extra que justifique o desgaste, e em exercícios pesados com peso livre ainda aumenta o risco de a técnica desandar bem na hora em que você está mais cansado.
Foi para dar nome a esse "quase" que surgiu a ideia de repetições na reserva, o RIR. É quantas repetições você ainda conseguiria fazer, com boa técnica, antes de travar. Terminar uma série com 2 de reserva quer dizer que dava para fazer mais duas e você parou ali. Zero de reserva é a falha técnica: não sobrou nada.
O RIR vira uma bússola de esforço. Em vez de perseguir a dor máxima, você mira parar a uns 1 a 3 movimentos do limite. Isso mantém o estímulo alto o suficiente para o crescimento e ainda sobra músculo para a próxima série render, o que preserva o volume total da sessão, que é o que mais importa.
Uma leva de estudos dos últimos anos aponta na mesma direção. Num estudo de 2024 publicado no Journal of Sports Sciences, adultos já treinados foram divididos por oito semanas entre treinar até a falha e parar com 1 a 2 repetições na reserva. A hipertrofia de quadríceps foi parecida nos dois grupos.
Revisões que juntam vários estudos chegam a uma nuance honesta: quanto mais perto da falha, um pouco mais de crescimento, mas a vantagem é modesta e praticamente some quando o objetivo é ganho de força. Ou seja, a proximidade da falha conta, chegar nela sempre, nem tanto.
A atualização das diretrizes de treino de força do Colégio Americano de Medicina do Esporte (ACSM), a primeira em 17 anos, formalizou esse recado. O documento diz que dá para atingir esforço suficiente treinando perto da falha, na faixa de 2 a 3 repetições na reserva, e que levar toda série à falha absoluta não é necessário. Segundo a entidade, treinar perto da falha entrega hipertrofia e força equivalentes, com menos fadiga acumulada e menor risco de lesão.
A recomendação equilibrada não é fugir do esforço. É calibrar. Alguns pontos que costumam funcionar para a maioria:
Um aviso honesto: "perto da falha" só faz sentido se você estiver realmente perto. Muita gente para com 5, 6 repetições na reserva achando que está puxando. Se sobra meia série no tanque, o problema não é o excesso de falha, é a falta de esforço.
Uma coisa que a pesquisa não decide por você é o gosto e a rotina. Tem gente que rende mais psicologicamente sabendo que deu tudo em algumas séries. Tem gente que treina em casa, dorme mal e precisa proteger a recuperação. A régua do RIR serve justamente para isso: ela te dá controle sobre o quanto apertar, em vez de te obrigar a chegar no talo toda vez.
Se você vem treinando até a falha total em tudo e sente que a recuperação anda travada, um teste simples: passe uma ou duas semanas parando com 2 repetições na reserva na maioria das séries e veja como o corpo e as cargas respondem. Costuma ser um alívio sem perda.
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação de um profissional de educação física ou médico. Ajustes de carga, volume e intensidade devem considerar o seu caso, seu histórico e a supervisão de quem acompanha o seu treino.